2020 e 2026: O medo e O mundo de cabeça para baixo: quando o absurdo se torna normal

Vivemos uma época curiosa. Temos mais informação do que qualquer geração anterior, acesso praticamente instantâneo ao conhecimento e uma capacidade tecnológica extraordinária. Entretanto, talvez nunca tenha sido tão difícil chegar a um consenso sobre aquilo que é verdadeiro, falso, normal ou absurdo.
Não se trata de afirmar que tudo era melhor no passado. A humanidade sempre conviveu com guerras, fanatismos, preconceitos, mentiras, manipulação e comportamentos irracionais. A diferença é que hoje esses fenômenos podem ser produzidos, amplificados e disseminados em uma velocidade nunca vista.
E há algo ainda mais curioso: algumas coisas que provocariam espanto há poucos anos passaram a ser apresentadas como absolutamente normais, enquanto outras que pareciam banais passaram a exigir longas explicações.
É como se, em determinados aspectos, o mundo tivesse ficado de cabeça para baixo.
2020: quando o medo nos unia
Em 2020, o mundo enfrentou uma experiência coletiva incomum: a pandemia de COVID-19.
O Brasil estava profundamente polarizado. Havia discussões acaloradas sobre isolamento social, máscaras, economia, tratamentos, vacinas, governos e responsabilidades. Famílias e amigos discutiam política como talvez nunca tivessem discutido antes. Parecia que não havia nada que unisse os dois lados.
Mas havia. O medo.
Algumas pessoas tinham medo de morrer. Outras tinham medo de perder pais, filhos ou pessoas queridas. Havia também quem tivesse medo de perder o emprego, fechar a empresa, passar fome ou não conseguir pagar as contas.
Havia ainda o medo da própria incerteza: ninguém sabia exatamente quanto tempo aquilo duraria, quais seriam as consequências ou como o mundo seria depois. As pessoas interpretavam a ameaça de maneiras diferentes, mas havia uma realidade concreta diante delas: uma doença estava circulando.
O medo podia ser diferente, as opiniões podiam ser opostas, mas havia um acontecimento comum.
Hoje, a sensação parece diferente.
Talvez o que esteja se disseminando não seja exatamente o medo, mas uma espécie de desorientação coletiva.
Não estamos apenas discordando sobre o que fazer. Em muitos casos, estamos discordando sobre o significado das próprias palavras, sobre aquilo que pode ser considerado um fato e até sobre o que deveria ser considerado normal.
1. Quando o fato se transforma em opinião
Uma das características mais curiosas do nosso tempo é a dificuldade crescente de separar fato, opinião, interpretação e identidade. Uma pessoa pode dizer que determinada música é ruim. Isso é uma opinião.
Outra pode dizer que determinada música foi lançada em determinado ano. Isso é uma informação que pode ser verificada. São coisas diferentes.
Entretanto, em algumas discussões contemporâneas, parece que até aquilo que poderia ser verificado objetivamente passou a ser tratado como uma questão de perspectiva pessoal.
Um exemplo particularmente sensível está nas discussões sobre sexo e gênero.
Durante grande parte da história, homem e mulher eram categorias compreendidas fundamentalmente a partir do sexo biológico. Hoje, a discussão incorporou conceitos como identidade de gênero, cisgênero, transgênero e sexo biológico.
A existência de novas palavras não é, por si só, um problema. A linguagem pode evoluir e pode ser útil para descrever experiências que antes não possuíam uma nomenclatura específica.
A questão começa quando a linguagem deixa de acrescentar nuances à realidade e passa a tornar controversa a própria existência de referências básicas.
Quando precisamos discutir não apenas as interpretações de uma realidade, mas a própria definição daquilo que está diante de nós, alguma coisa mudou.
A pergunta passa a ser:
Até que ponto estamos apenas ampliando nossa compreensão da realidade e a partir de que ponto estamos redefinindo a própria realidade?
2. Quando a linguagem começa a moldar a realidade
A linguagem nunca foi apenas um conjunto de palavras. Ela influencia a maneira como pensamos.
Por isso, é natural que grupos sociais procurem modificar expressões que consideram ofensivas ou inadequadas. A preocupação com respeito e dignidade é legítima.
O problema surge quando a linguagem passa a ser tratada como uma ferramenta capaz de determinar aquilo que uma pessoa deve pensar, dizer ou até sentir.
Um exemplo está nas diferentes propostas de linguagem neutra ou inclusiva. É perfeitamente legítimo discutir se uma determinada forma de comunicação é mais respeitosa, mais inclusiva ou mais adequada a determinado contexto.
Mas surge uma questão maior: Modificar a palavra modifica a realidade que ela representa? Se mudarmos o nome de alguma coisa, mudamos a coisa em si?
Uma sociedade livre precisa ser capaz de discutir linguagem sem transformar toda divergência linguística em uma questão moral, porque existe uma diferença entre pedir respeito e exigir uma determinada visão de mundo.
A linguagem pode descrever a realidade, pode também influenciar a maneira como a percebemos, mas não deveria ser confundida com a própria realidade.
3. Quando a mentira viaja mais rápido que a verdade
A humanidade sempre produziu boatos e mentiras. A diferença é que hoje uma informação pode atravessar o planeta em poucos minutos.
Uma notícia falsa pode ser criada em segundos, compartilhada milhares de vezes e alcançar milhões de pessoas antes que alguém tenha tempo de verificá-la. O desmentido, por outro lado, é trabalhoso.
É preciso investigar, consultar fontes, apresentar evidências e explicar por que a informação original estava errada. E existe outro problema: o desmentido muitas vezes não alcança todas as pessoas que receberam a mentira.
Assim, podemos ter uma situação curiosa: uma mentira pode ser conhecida por milhões antes mesmo de ser verificada por alguém.
Além disso, a repetição produz familiaridade. Uma informação que aparece muitas vezes começa a parecer conhecida. E aquilo que parece conhecido pode ser confundido com aquilo que é verdadeiro. Não é necessário convencer alguém de uma mentira, às vezes, basta repeti-la o suficiente.
Esse é um dos grandes desafios da era digital: não estamos apenas vivendo em uma sociedade com muita informação. Estamos vivendo em uma sociedade em que informação verdadeira, informação falsa, propaganda, opinião e manipulação chegam até nós misturadas no mesmo fluxo.
E quando tudo parece igualmente plausível, a própria ideia de verdade começa a perder força.
4. Quando o absurdo se torna normal
Talvez uma das características mais impressionantes do nosso tempo seja a capacidade de transformar o extraordinário em cotidiano. O ser humano se acostuma, aquilo que ontem provocaria espanto pode hoje provocar apenas um comentário: “Mais uma coisa dessas.”
Um exemplo são os grupos que defendem o terraplanismo, apesar da enorme quantidade de evidências científicas acumuladas ao longo dos séculos.
Outro fenômeno contemporâneo é o dos chamados therians: pessoas que relatam uma identificação profunda com determinados animais. Essa experiência pode assumir formas diferentes, desde uma identificação subjetiva ou espiritual até mudanças na maneira de se vestir, comportar e organizar a própria vida. Em alguns casos, há também o desejo de aproximar a própria aparência da do animal com o qual a pessoa se identifica.
O objetivo aqui não é ridicularizar essas pessoas nem transformar uma experiência individual em diagnóstico. A questão é outra:
Até onde pode ir a subjetividade humana antes que ela passe a disputar o próprio conceito de realidade?
Uma sociedade livre deve permitir que pessoas tenham experiências incomuns, crenças particulares e formas diferentes de compreender a própria existência, mas isso não significa que toda percepção subjetiva precise ser aceita como uma descrição objetiva da realidade. Essa distinção é fundamental.
Podemos respeitar uma pessoa sem necessariamente concordar com sua interpretação do mundo. O problema começa quando o respeito deixa de significar convivência e passa a significar obrigação de concordância.
5. Quando a ideologia vence o próprio interesse
Outro fenômeno curioso da polarização é observar pessoas defendendo posições que podem contrariar seus próprios interesses materiais.
Uma pessoa pode defender uma política que aumente sua carga tributária porque acredita que a arrecadação é necessária para financiar serviços públicos.
Outra pode defender determinada política econômica porque acredita que seus benefícios para a sociedade são maiores que seus custos individuais. Até aqui, não há nada de irracional. O problema aparece quando deixamos de perguntar: “Isso funciona?” e passamos a perguntar apenas: “Isso é defendido pelo meu lado?”
Nesse momento, a ideologia pode se tornar mais importante que a análise das consequências.
A pessoa já não precisa avaliar uma ideia por aquilo que ela produz na realidade. Basta saber de qual grupo ela veio. É um fenômeno que pode acontecer em qualquer espectro político.
A fidelidade ao grupo passa a ser mais importante do que a disposição para reconhecer um erro. E isso produz uma espécie de prisão intelectual: se admitir que o outro está certo significa trair o próprio grupo, então reconhecer a verdade se torna emocionalmente difícil.
6. Quando o politicamente correto chega aos sentimentos
Existe uma diferença fundamental entre sentir, pensar, dizer e fazer. Uma pessoa pode sentir amor, raiva, antipatia, desprezo ou até ódio. Sentimentos fazem parte da experiência humana.
Uma sociedade livre não deveria exigir que todos os indivíduos sintam as mesmas coisas.
Podemos considerar determinado sentimento moralmente feio, injusto ou repulsivo. Ainda assim, existe uma diferença entre sentir alguma coisa e transformar esse sentimento em uma ação contra outra pessoa.
Uma ameaça é diferente de um pensamento.
Uma agressão é diferente de uma antipatia.
Uma perseguição é diferente de um sentimento.
Uma discriminação ilícita é diferente de simplesmente não gostar de alguém.
Quando o sentimento se transforma em uma conduta que viola direitos ou a lei, existem mecanismos jurídicos para lidar com isso, mas o sentimento, por si só, pertence à esfera interior do indivíduo.
O politicamente correto surgiu, em grande medida, de uma preocupação legítima: evitar humilhações, preconceitos e agressões gratuitas, entretanto, em determinados ambientes, parece ter evoluído para algo mais amplo: uma espécie de policiamento permanente da linguagem, das opiniões e até das emoções.
Uma piada sobre determinado grupo pode ser considerada aceitável, enquanto uma piada semelhante sobre outro grupo pode ser classificada como ofensiva ou até como discurso de ódio.
A questão não é defender a crueldade, é perguntar: Uma sociedade livre deve controlar aquilo que uma pessoa sente ou deve controlar aquilo que ela faz com aquilo que sente?
A liberdade não existe apenas para proteger pensamentos bonitos, ela também precisa proteger a liberdade de pensar e sentir coisas com as quais os outros discordam profundamente, porque, se começarmos a considerar determinados sentimentos proibidos, teremos dado um passo muito além do controle das ações. Teremos começado a tentar controlar a própria vida interior.
7. Quando discordar passa a ser uma agressão
Talvez essa seja uma das consequências mais perigosas de todas. Em uma sociedade intelectualmente saudável, duas pessoas podem dizer:
“Eu penso diferente de você.” E continuar conversando.
Hoje, em determinados ambientes, discordar de uma premissa pode ser interpretado como intolerância, preconceito, violência ou ameaça. Isso cria um problema: se toda discordância for transformada em agressão, desaparece o espaço necessário para o debate.
E quando determinadas ideias deixam de poder ser questionadas, elas deixam de funcionar como ideias e começam a funcionar como dogmas.
Uma sociedade livre não precisa que todos concordem, precisa que as pessoas possam discordar sem transformar automaticamente o adversário em inimigo.
Afinal, estamos mais loucos ou apenas mais expostos?
Talvez seja necessário fazer uma ressalva.
O mundo sempre teve pessoas irracionais, teorias absurdas, fanáticos, mentirosos, manipuladores e indivíduos dispostos a acreditar em qualquer coisa.
A diferença é que, antes, essas pessoas tinham dificuldade para encontrar umas às outras. Hoje, a internet permite que milhares ou milhões de pessoas com a mesma crença se encontrem. Assim, uma ideia que antes existia isoladamente pode formar uma comunidade.
E uma comunidade pode criar sua própria linguagem, seus próprios heróis, seus próprios inimigos e suas próprias explicações para o mundo. A internet não inventou a irracionalidade, ela tornou possível organizar a irracionalidade em escala. Talvez por isso tenhamos a impressão de que o mundo enlouqueceu.
Pode ser que ele não tenha enlouquecido completamente. Pode ser que simplesmente estejamos vendo muito mais daquilo que sempre esteve escondido.
De 2020 ao presente: do medo à desorientação
Em 2020, apesar de toda a polarização, havia algo que nos unia. O medo.
Tínhamos medo de uma realidade que não compreendíamos completamente.
Hoje, talvez estejamos diante de outro tipo de crise. Não sabemos apenas o que fazer. Em alguns casos, já não conseguimos sequer concordar sobre o que estamos vendo.
Podemos discordar sobre política, economia, religião, costumes e valores. Isso faz parte da liberdade, mas uma sociedade precisa conservar alguns referenciais comuns para conseguir conversar.
Precisamos conseguir distinguir fato de opinião.
Evidência de crença.
Realidade de interpretação.
Mentira de verdade.
Sentimento de ação.
E liberdade de imposição.
Talvez essa seja a verdadeira inversão do nosso tempo. Não é simplesmente o fato de algumas pessoas acreditarem em coisas absurdas. É o momento em que perdemos os critérios que nos permitiam reconhecer o absurdo.
Tirando o véu
Maya, na tradição filosófica indiana, é frequentemente associada à aparência, à ilusão e à dificuldade de perceber a realidade tal como ela é. Talvez o nosso tempo tenha criado uma nova forma de Maya. Não precisamos mais de uma única ilusão coletiva. Temos milhares delas.
Cada grupo pode viver dentro de sua própria narrativa, cercado por pessoas que confirmam suas crenças, consumindo informações selecionadas pelos mesmos algoritmos e rejeitando qualquer coisa que contrarie aquilo que já acredita.
O verdadeiro desafio talvez não seja descobrir qual grupo possui toda a verdade. Talvez seja recuperar a capacidade de perguntar: “E se aquilo em que acredito estiver errado?”
Essa pergunta exige humildade, exige liberdade e exige coragem. Porque talvez a maior loucura de uma época não seja acreditar em uma mentira. Talvez seja chegar ao ponto em que já não conseguimos concordar sobre o que significa realidade — nem sequer sobre o que significa absurdo.
