A História do Tarot: dos Jogos de Cartas ao Oráculo dos Símbolos

28/08/2026 23:04

 

 

Poucos sistemas simbólicos despertam tanto fascínio quanto o Tarot. Suas imagens atravessaram séculos, foram utilizadas como jogo, objeto artístico, instrumento de reflexão e, posteriormente, como oráculo. Ao longo do tempo, sua origem foi envolvida por inúmeras histórias e mistérios: alguns afirmaram que suas cartas teriam vindo do Egito antigo; outros relacionaram o Tarot à Cabala, aos ciganos, aos templários ou a conhecimentos secretos preservados por sociedades iniciáticas.

 

Os primeiros baralhos

As evidências históricas conhecidas apontam para o surgimento do Tarot no norte da Itália, por volta do século XV. Naquela época, os jogos de cartas já eram populares na Europa. Os baralhos comuns possuíam quatro naipes, semelhantes à estrutura que conhecemos hoje, e eram utilizados principalmente para jogos.

Em algum momento, esses baralhos receberam um conjunto adicional de cartas ilustradas, conhecidas na Itália como trionfi, ou “triunfos”. Essas cartas especiais possuíam uma posição superior dentro de determinados jogos e traziam imagens alegóricas: personagens, virtudes, figuras religiosas, astros e representações simbólicas da condição humana.

Assim nasceu uma das características fundamentais do Tarot: a existência de um conjunto de cartas comuns, posteriormente chamado de Arcanos Menores, e outro conjunto formado por imagens alegóricas e especiais, os futuros Arcanos Maiores.

 

O Tarot das famílias nobres

Entre os exemplos mais antigos e famosos estão os chamados baralhos Visconti-Sforza, produzidos para famílias nobres de Milão durante o século XV. Ricamente ilustradas e muitas vezes decoradas com folhas de ouro, essas cartas eram verdadeiras obras de arte.

É importante lembrar que, naquele período, não existem evidências de que o Tarot fosse utilizado da mesma forma que é empregado atualmente em consultas divinatórias. Seu uso principal era o jogo, enquanto suas imagens refletiam elementos da cultura, da religião, da política e da visão de mundo da sociedade renascentista.

Ainda assim, essas imagens já continham algo que continuaria a acompanhar o Tarot pelos séculos seguintes: uma extraordinária capacidade de representar experiências humanas universais.

 

Dos “Triunfos” aos Arcanos

As cartas que hoje chamamos de Arcanos Maiores formam uma espécie de percurso simbólico. Encontramos nelas o Louco, o Mago, a Imperatriz, o Imperador, a Morte, a Justiça, o Sol, a Lua e muitas outras figuras que parecem representar forças e experiências presentes na vida humana.

Ao lado delas estão os Arcanos Menores, organizados em quatro naipes. Com o passar do tempo, esses naipes foram associados a diferentes aspectos da experiência: emoções, pensamentos, ação, matéria, recursos e desafios cotidianos.

A palavra arcano, porém, é uma designação posterior. Ela significa, em sua origem, algo oculto, secreto ou misterioso. Quando o Tarot passou a ser estudado como um sistema esotérico, suas cartas começaram a ser compreendidas não apenas como peças de um jogo, mas como portadoras de conhecimentos simbólicos.

 

Tarot Esotérico

A grande transformação aconteceu principalmente entre os séculos XVIII e XIX.

Nesse período, alguns estudiosos e ocultistas passaram a procurar origens secretas para o Tarot. O francês Antoine Court de Gébelin foi um dos primeiros a defender a ideia de que suas imagens conteriam conhecimentos muito antigos, chegando a relacioná-las simbolicamente ao Egito.

Essas teorias não são confirmadas pelas evidências históricas sobre a origem do baralho. Entretanto, exerceram uma influência profunda sobre a maneira como o Tarot passou a ser compreendido.

A partir daí, diversos autores começaram a estabelecer relações entre as cartas e outros sistemas de conhecimento, como a astrologia, a Cabala, a alquimia e diferentes tradições herméticas. O Tarot deixou, então, de ser apenas um jogo de cartas para transformar-se progressivamente em um verdadeiro mapa simbólico.

 

O desenvolvimento do Tarot moderno

No século XIX, o ocultismo europeu contribuiu decisivamente para a criação das interpretações que conhecemos atualmente. Autores como Etteilla, Éliphas Lévi e, posteriormente, membros de ordens esotéricas desenvolveram sistemas cada vez mais complexos de correspondências entre o Tarot e outros conhecimentos simbólicos.

No início do século XX, surgiu aquele que se tornaria um dos baralhos mais influentes do mundo: o Rider-Waite-Smith.

 

Publicado em 1909, ele foi idealizado por Arthur Edward Waite e ilustrado pela artista Pamela Colman Smith. Sua grande inovação foi apresentar cenas completas também em muitas cartas dos Arcanos Menores. Antes disso, era comum que essas cartas fossem representadas apenas pelos símbolos dos naipes.

As imagens de Pamela Smith ajudaram a tornar a leitura do Tarot mais intuitiva e narrativa. Uma carta deixava de mostrar apenas cinco espadas ou três copas e passava a apresentar uma cena capaz de sugerir emoções, situações e relações entre personagens.

Grande parte da imagem que hoje temos do Tarot foi profundamente influenciada por esse baralho.

 

O Tarot entre a história e o mistério

A história documentada do Tarot e as tradições esotéricas nem sempre contam exatamente a mesma narrativa.

Historicamente, suas origens conhecidas apontam para os jogos de cartas do Renascimento italiano. Já as tradições místicas construíram, ao longo dos séculos, uma rica rede de interpretações que relacionam suas imagens a conhecimentos antigos e universais.

Seria possível dizer que existem, portanto, duas histórias do Tarot.

A primeira é a história de um objeto cultural, criado em determinado contexto histórico e transformado através dos séculos.

A segunda é a história simbólica que a humanidade construiu em torno dele: o Tarot como linguagem da alma, espelho do inconsciente, instrumento de autoconhecimento e sistema de correspondências entre diferentes dimensões da experiência.

Uma não precisa necessariamente destruir a outra. Conhecer sua história não diminui o mistério. Pelo contrário: talvez seja ainda mais fascinante perceber como um conjunto de cartas criado há séculos continuou adquirindo novos significados a cada geração.

 

Um espelho que atravessa o tempo

 

O que explica a permanência do Tarot?

Talvez seja justamente a força de suas imagens. O nascimento e a morte, a escolha e a perda, o desejo e o medo, a esperança, a transformação, o poder, o amor e a busca por sentido são experiências humanas que atravessam épocas e culturas.

 

Quando observamos uma carta como o Eremita, podemos reconhecer a necessidade de recolhimento e busca interior. Na Morte, percebemos os ciclos inevitáveis de encerramento e transformação. No Sol, vemos vitalidade e clareza. Na Lua, os mistérios, os medos e aquilo que ainda não conseguimos enxergar com nitidez.

As cartas permanecem as mesmas, mas cada pessoa, em cada época, encontra nelas novos reflexos.

Talvez seja esse o verdadeiro segredo do Tarot: ele não pertence apenas ao passado. Embora tenha nascido em um momento específico da história, suas imagens continuam vivas porque falam de experiências que continuam acontecendo dentro de nós.

Do jogo renascentista ao oráculo contemporâneo, o Tarot percorreu uma longa jornada. E, assim como o Louco que inicia seu caminho sem conhecer todos os seus destinos.

 

Os principais Tarots da atualidade e seus criadores

A partir do século XX, o Tarot passou por uma grande expansão. Se antes existiam principalmente baralhos ligados às tradições italianas, francesas e ocultistas, o desenvolvimento de novas escolas e interpretações deu origem a diferentes sistemas de Tarot.

Atualmente, existem milhares de baralhos no mundo, mas alguns se tornaram verdadeiras referências. Muitos deles deram origem a escolas de interpretação próprias e continuam influenciando a maneira como o Tarot é estudado e praticado.

 

Tarot de Marselha: a grande tradição europeia

 

 

Quando falamos em escolas de Tarot, é impossível deixar de lado o chamado Tarot de Marselha.

Diferentemente do Rider-Waite-Smith e do Thoth, o Tarot de Marselha não possui um único criador. O nome se refere a uma tradição de baralhos que se desenvolveu principalmente na Europa entre os séculos XVII e XVIII.

Entre os nomes associados aos antigos baralhos dessa tradição está Jean Noblet, que produziu um importante Tarot em Paris por volta de 1650. Mais tarde, em Marselha, cartomantes e fabricantes como Jean-Pierre Payen e Nicolas Conver contribuíram para a consolidação do estilo que se tornaria conhecido como Tarot de Marselha.

O baralho de Nicolas Conver, publicado no século XVIII, tornou-se uma das principais referências para as reconstruções modernas.

No Tarot de Marselha, os Arcanos Maiores possuem imagens figurativas, mas os Arcanos Menores continuam sendo, em grande parte, representados de forma simbólica e não narrativa. Uma carta de três espadas, por exemplo, não mostra uma cena específica, mas utiliza a disposição dos próprios símbolos para construir sua linguagem visual.

Por isso, a leitura do Tarot de Marselha costuma exigir maior atenção à numerologia, aos naipes, à posição dos símbolos e às relações entre as cartas.

 

Rider-Waite-Smith: o Tarot que transformou a leitura moderna

 

 

Publicado em 1909, o Rider-Waite-Smith, frequentemente chamado apenas de Tarot de Waite, é provavelmente o baralho mais influente do Tarot moderno.

Seu desenvolvimento foi orientado pelo ocultista Arthur Edward Waite, membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada, enquanto as ilustrações foram criadas pela artista Pamela Colman Smith.

Embora o nome de Waite tenha sido durante muito tempo associado ao baralho de forma quase exclusiva, a importância de Pamela Smith foi fundamental. Foi ela quem deu forma visual às cartas e criou as cenas expressivas que se tornariam uma das maiores inovações do baralho.

Nos Tarots anteriores, muitos Arcanos Menores apresentavam apenas os símbolos dos naipes: espadas, copas, paus ou moedas em diferentes quantidades. Pamela Smith criou cenas completas para todas as 78 cartas, transformando os Arcanos Menores em verdadeiras narrativas visuais.

Essa característica tornou o baralho especialmente acessível para leituras intuitivas e ajudou a popularizar o Tarot em todo o mundo.

 

Tarot de Thoth: o Tarot da magia, da Cabala e da astrologia

 

 

Outro dos grandes pilares do Tarot moderno é o Tarot de Thoth, criado pelo ocultista inglês Aleister Crowley e ilustrado pela artista Lady Frieda Harris.

O projeto foi desenvolvido entre 1938 e 1943, mas o baralho completo só seria publicado após a morte de Crowley, em 1969.

O Tarot de Thoth é considerado um dos sistemas mais complexos e simbolicamente densos já criados. Crowley reuniu em suas cartas elementos de diversas tradições, especialmente da Cabala, da astrologia, da alquimia, da numerologia e da magia cerimonial.

As ilustrações de Frieda Harris possuem um estilo muito diferente do Rider-Waite-Smith. Em vez de cenas narrativas com personagens facilmente identificáveis, encontramos composições abstratas, geométricas e intensamente simbólicas.

Cada carta foi construída a partir de uma complexa rede de correspondências. Os planetas, os signos do zodíaco, as letras hebraicas, os elementos e os princípios alquímicos participam da estrutura do baralho.

O próprio nome de algumas cartas também foi alterado. A Justiça, por exemplo, tornou-se Ajustamento; a Temperança passou a ser chamada de Arte; e o Julgamento recebeu o nome de Éon.

Além disso, Crowley desenvolveu uma interpretação própria para os Arcanos Menores. Muitas cartas receberam títulos específicos, como Riqueza, Crueldade, Harmonia, Derrota ou Sucesso, acrescentando uma camada adicional de significado à leitura.

O Tarot de Thoth exige estudo e familiaridade com seus sistemas de correspondência, mas é justamente essa profundidade que faz dele um dos baralhos mais fascinantes para estudantes de ocultismo e Tarot.

Assim como Pamela Colman Smith foi essencial para o Rider-Waite-Smith, Frieda Harris não deve ser vista apenas como uma ilustradora. Sua contribuição artística foi decisiva para a criação da identidade visual e simbólica do Tarot de Thoth.

 

A multiplicação dos Tarots contemporâneos

Hoje, o universo do Tarot é muito mais amplo do que qualquer uma de suas escolas tradicionais.

Existem baralhos baseados na natureza, nos animais, nas deusas, nos mitos, na psicologia, na astrologia, na cultura popular e em praticamente todos os universos simbólicos imagináveis.

Alguns seguem rigorosamente a estrutura do Rider-Waite-Smith. Outros utilizam o sistema do Tarot de Thoth ou do Marselha. E existem ainda os chamados Tarots de autor, criados a partir da visão particular de seus artistas e estudiosos.

Essa diversidade mostra que o Tarot continua vivo.

Mais do que um objeto preservado do passado, ele é uma linguagem que continua sendo reinterpretada. Cada novo artista pode encontrar formas diferentes de representar os grandes temas humanos: amor, medo, poder, transformação, perda, desejo, conhecimento e esperança.

Diferentes baralhos, uma mesma linguagem simbólica. Nenhum deles é necessariamente superior aos outros. Cada sistema oferece uma maneira diferente de percorrer o universo do Tarot.

 

E talvez essa seja uma das razões de sua sobrevivência ao longo dos séculos: embora as imagens mudem, os artistas se sucedam e novas interpretações surjam, o Tarot continua retornando às mesmas grandes questões humanas.