Aquiles e a Guerra de Troia

25/09/2026 22:58

 

 

Entre os heróis da mitologia grega, poucos são tão conhecidos quanto Aquiles. Filho de uma deusa e de um mortal, guerreiro extraordinário e personagem central da Guerra de Troia, Aquiles representa ao mesmo tempo a força, a glória, a ira e a fragilidade humana.

Sua história tornou-se uma das grandes narrativas da tradição grega e atravessou os séculos por meio de poemas, peças, pinturas, esculturas e inúmeras adaptações.

Mas quem foi Aquiles? E o que realmente aconteceu na Guerra de Troia?

 

A Guerra de Troia

A Guerra de Troia teria acontecido entre os gregos e a cidade de Troia, localizada na região da atual Turquia.

Segundo a tradição mitológica, o conflito começou quando Páris, príncipe de Troia, levou Helena para Troia. Helena era esposa de Menelau, rei de Esparta, e sua partida provocou a reação dos gregos.

Menelau reuniu outros reis e heróis gregos para recuperar Helena. Entre eles estavam Agamêmnon, irmão de Menelau e comandante da expedição; Odisseu, conhecido por sua inteligência; Ajax, famoso por sua força; e Aquiles, considerado o maior guerreiro entre os gregos.

Entretanto, a história conhecida atualmente como Guerra de Troia é formada por diferentes poemas e tradições. A Ilíada, atribuída a Homero, não conta toda a guerra: concentra-se principalmente em um curto período do décimo ano do conflito e, sobretudo, na ira de Aquiles.

 

Aquiles era filho de Peleu, rei dos mirmidões, e de Tétis, uma nereida, divindade marinha.

Tétis sabia que seu filho teria um destino extraordinário, mas também que sua vida seria curta caso participasse da Guerra de Troia.

Existe uma tradição posterior segundo a qual Tétis teria mergulhado Aquiles no rio Estige, tentando torná-lo invulnerável. Como o segurava pelo calcanhar, essa parte de seu corpo teria permanecido vulnerável.

É daí que surgiu a conhecida expressão "calcanhar de Aquiles", usada até hoje para designar o ponto fraco de alguém.

É importante observar, porém, que essa história do calcanhar não aparece na Ilíada. Ela pertence a tradições posteriores sobre o herói.

Aquiles conhecia uma escolha que marcaria toda a sua existência. Segundo a tradição, ele poderia permanecer em sua terra e viver uma vida longa, porém sem grande glória, ou partir para Troia e conquistar uma fama extraordinária, sabendo que sua vida seria curta. Aquiles escolheu a segunda possibilidade.

Essa escolha está no centro de sua personagem: para o herói, a glória conquistada em uma vida breve poderia ser mais importante do que uma existência longa e desconhecida.

 

Aquiles na Guerra de Troia

Aquiles chegou a Troia acompanhado pelos mirmidões, seus guerreiros.

Sua habilidade no combate era tão grande que sua presença provocava temor entre os troianos. Durante anos, conquistou cidades e derrotou inúmeros inimigos.

Mas Aquiles também era extremamente orgulhoso, e é justamente seu orgulho que desencadeia o acontecimento central da Ilíada.

Agamêmnon, comandante dos gregos, tomou Briseida, uma mulher que havia sido entregue a Aquiles como prêmio de guerra. Aquiles considerou a atitude uma humilhação.

Enfurecido, retirou-se da batalha e decidiu que não lutaria mais pelos gregos.

Sua ausência teve consequências enormes. Sem seu maior guerreiro, os gregos começaram a sofrer derrotas diante dos troianos. É por isso que a Ilíada começa com uma palavra fundamental: a ira de Aquiles.

Não é apenas a história de uma guerra. É também a história de como a cólera, o orgulho e a honra podem transformar o destino de muitas pessoas.

 

Pátroclo era o grande companheiro de Aquiles. Enquanto Aquiles permanecia afastado da batalha, os gregos enfrentavam dificuldades cada vez maiores.

Pátroclo pediu permissão para usar a armadura de Aquiles e entrar no combate. A ideia era fazer os troianos acreditarem que Aquiles havia voltado à guerra. A estratégia funcionou inicialmente.

Porém, Pátroclo acabou enfrentando Heitor, príncipe de Troia e seu maior guerreiro. Heitor matou Pátroclo. A morte de seu companheiro mudou completamente Aquiles.

A ira que antes estava voltada contra Agamêmnon passou a dirigir-se contra Heitor.

Depois da morte de Pátroclo, Aquiles voltou à batalha, seu objetivo era encontrar Heitor.

Os dois finalmente se enfrentaram diante das muralhas de Troia. Heitor sabia que poderia morrer, mas permaneceu para lutar. Aquiles o derrotou e matou.

Depois, tomado pela dor e pela fúria, arrastou o corpo de Heitor diante das muralhas de Troia.

Esse episódio mostra uma das características mais humanas de Aquiles: mesmo sendo apresentado como um guerreiro quase invencível, ele também é capaz de ser dominado pela dor e pelo desejo de vingança.

 

Príamo diante de Aquiles

Um dos momentos mais marcantes da Ilíada acontece depois da morte de Heitor. Príamo, rei de Troia e pai de Heitor, vai sozinho até o acampamento grego para pedir a Aquiles que devolva o corpo de seu filho. O velho rei se ajoelha diante do homem que matou Heitor.

Aquiles, diante da dor de Príamo, reconhece também a própria humanidade. Os dois choram.

Nesse momento, o inimigo deixa de ser apenas um inimigo. Aquiles percebe a dor de um pai que perdeu o filho, enquanto Príamo vê diante de si não apenas o assassino de Heitor, mas também um jovem que sabe que seu próprio destino será a morte. Aquiles finalmente entrega o corpo de Heitor.

A Ilíada termina com os funerais do príncipe troiano.

 

A morte de Aquiles

A morte de Aquiles não é narrada na Ilíada. Nas tradições posteriores, entretanto, Aquiles acaba sendo morto por Páris, príncipe de Troia.

Em uma das versões mais conhecidas, Páris dispara uma flecha que atinge Aquiles no calcanhar, seu único ponto vulnerável. Em outras tradições, os deuses também participam do acontecimento, conduzindo a flecha até seu destino.

Assim, o grande guerreiro que parecia quase invencível encontra justamente o destino que tentava desafiar.

 

Outro episódio extremamente famoso da Guerra de Troia também não pertence à narrativa principal da Ilíada. Depois de muitos anos de combate, os gregos elaboraram um plano atribuído a Odisseu.

Construíram um enorme cavalo de madeira e deixaram-no diante das muralhas de Troia, enquanto fingiam abandonar a região. Dentro do cavalo estavam escondidos guerreiros gregos. Os troianos levaram o cavalo para dentro da cidade.

Durante a noite, os soldados saíram de seu esconderijo e abriram os portões para o exército grego. Troia finalmente caiu.

Esse episódio ficou conhecido como Cavalo de Troia e tornou-se uma das histórias mais famosas de toda a mitologia grega.

A queda de Troia não significou um final feliz para os vencedores. Muitos heróis gregos tiveram destinos difíceis.

Odisseu, por exemplo, ainda enfrentaria uma longa viagem antes de conseguir retornar para casa. Essa é a história narrada na Odisseia. Aquiles, por sua vez, já havia encontrado a morte. Heitor estava morto. Páris também acabaria morrendo. Helena retornaria para Esparta com Menelau, segundo a tradição mais conhecida.

A Guerra de Troia deixou, portanto, uma longa sequência de histórias sobre perdas, viagens, vinganças e consequências.

 

Aquiles: herói ou homem?

Aquiles é frequentemente lembrado como um guerreiro invencível. Mas sua importância na mitologia vai muito além da força física. Ele é um personagem marcado por contradições. É extremamente poderoso, mas vulnerável. É corajoso, mas conhece o medo da morte. Busca a glória, mas sabe que ela terá um preço. É tomado pela ira, mas também é capaz de compaixão. Ama seus companheiros, mas sua própria escolha e seu orgulho contribuem para a morte de muitos.

Por isso, Aquiles permanece tão fascinante. Ele não representa apenas o herói perfeito. Representa também o ser humano diante de escolhas que não podem ser desfeitas.

A história de Aquiles pode ser entendida como uma reflexão sobre a relação entre glória, destino e mortalidade. Aquiles poderia ter escolhido uma vida longa e tranquila. Preferiu uma vida curta, mas destinada a ser lembrada. E conseguiu aquilo que desejava: milhares de anos depois, ainda conhecemos seu nome.

Mas existe uma ironia nessa escolha: a glória que tornou Aquiles imortal na memória humana nasceu justamente de sua mortalidade. Seu corpo morreu, seu nome permaneceu.

Talvez seja essa uma das razões pelas quais Aquiles continua sendo um dos maiores heróis da tradição greco-romana.

 

Onde conhecer as histórias originais?

A principal fonte antiga para conhecer Aquiles e a Guerra de Troia é a Ilíada, poema atribuído a Homero.

Para conhecer o retorno de Odisseu depois da guerra, a obra fundamental é a Odisseia, também atribuída a Homero.

Outros acontecimentos da Guerra de Troia aparecem em poemas e obras posteriores, que completam episódios que não são narrados na Ilíada.

Assim, é interessante lembrar que aquilo que hoje chamamos de "Guerra de Troia" não é uma única história escrita em um único livro. É um conjunto de tradições que foram transmitidas, transformadas e ampliadas ao longo dos séculos.

Aquiles permanece no centro dessa tradição como o herói que escolheu a glória, enfrentou seu destino e descobriu, no fim, que nenhum guerreiro é maior do que a própria condição humana.