Ceres e Pallas
A astrologia como conhecimento vivo
Existe uma ideia recorrente de que a astrologia deveria permanecer exatamente como foi estabelecida em algum momento do passado, mas essa ideia não corresponde à própria história da astrologia.
A astrologia que conhecemos hoje não surgiu pronta, ela foi construída ao longo de milhares de anos, passando por diferentes povos, culturas e períodos históricos. Babilônios, egípcios, gregos, romanos, árabes, persas e europeus participaram, de diferentes maneiras, da construção desse conhecimento.
Conceitos foram incorporados, outros foram modificados, alguns foram abandonados, novas técnicas surgiram. E o próprio sistema de regências que hoje chamamos de tradicional é resultado desse processo histórico.
Portanto, quando olhamos para a astrologia atual, não estamos diante de um sistema congelado no momento de sua origem. Estamos diante de uma tradição viva, que continua sendo interpretada e reconstruída.
A astronomia também mudou, existe ainda uma questão fundamental, a astrologia tradicional foi construída a partir de uma visão do Cosmos disponível em sua época e os antigos conheciam apenas os planetas visíveis a olho nu.
Por isso, Saturno era o limite do Sistema Solar conhecido, depois vieram as descobertas de Urano, Netuno e Plutão e a astrologia incorporou esses corpos.
Isso demonstra algo importante: a astrologia não ficou presa à astronomia antiga. Quando a humanidade ampliou sua percepção do Sistema Solar, a astrologia também passou a investigar o significado simbólico desses novos corpos.
Hoje conhecemos uma realidade celeste muito mais complexa do que aquela conhecida pelos antigos, conhecemos planetas anões, asteroides, objetos transnetunianos e inúmeros outros corpos.
Isso não significa que todo objeto descoberto precise automaticamente receber uma função astrológica, mas significa que não existe razão para considerar encerrada a investigação simbólica do céu.
O céu continua mudando para nós, mas na verdade, o céu não mudou, o que mudou foi a nossa capacidade de observá-lo. E isso é fundamental.
O conhecimento humano cresce quando aquilo que antes era invisível passa a ser percebido. Foi assim com Urano, foi assim com Netuno, foi assim com Plutão, e é assim também com os inúmeros corpos menores que passaram a ser conhecidos pela astronomia moderna.
A questão, portanto, não é abandonar a tradição, é perguntar: o que os novos conhecimentos podem acrescentar àquilo que já sabemos?
Tradição não é sinônimo de imobilidade, respeitar uma tradição não significa impedir que ela evolua. Uma tradição verdadeiramente viva é aquela capaz de dialogar com novas descobertas sem perder sua identidade.
Por isso, investigar Pallas e Ceres não significa declarar que toda a astrologia tradicional estava errada, significa reconhecer que o conhecimento astrológico sempre foi resultado de uma construção histórica, e, se ele foi construído por diferentes povos ao longo de milhares de anos, não há motivo para imaginar que essa construção precise terminar agora.
Talvez uma das maiores diferenças entre um conhecimento vivo e um dogma seja justamente esta: o conhecimento vivo permite perguntas.
A astrologia pode preservar sua tradição e, ao mesmo tempo, continuar investigando: pode olhar para os antigos e perguntar o que eles descobriram, pode olhar para o céu moderno e perguntar o que nós estamos descobrindo, e pode colocar essas duas coisas em diálogo.
É nesse espaço entre tradição e descoberta que nasce a proposta de uma astrologia moderna, uma astrologia que, conhecendo o passado, se permite continuar caminhando.
A astrologia é uma linguagem construída pela humanidade para interpretar o Cosmos — e, enquanto continuarmos descobrindo o Cosmos, continuaremos tendo novas perguntas para fazer.
Na astrologia tradicional, cada signo possui um planeta regente.
Áries é regido por Marte.
Touro e Libra por Vênus.
Gêmeos e Virgem por Mercúrio.
Câncer pela Lua.
Leão pelo Sol.
Escorpião por Marte, e posteriormente associado a Plutão.
Sagitário por Júpiter.
Capricórnio por Saturno.
Aquário por Saturno, posteriormente associado a Urano.
Peixes por Júpiter, posteriormente associado a Netuno.
Pallas e Ceres: desembaraçando a tradição para compreender o Zodíaco
À medida que novos corpos celestes são descobertos, novas correspondências podem ser investigadas. E, às vezes, é necessário desembaraçar uma antiga tradição, um antigo dogma, para que o conhecimento possa continuar evoluindo.
É nesse espírito que propomos uma releitura das regências de Libra e Virgem, incorporando dois corpos celestes conhecidos desde a era moderna: Pallas e Ceres.
Não se trata de negar a astrologia tradicional, mas de perguntar: será que as regências que recebemos são a única maneira possível de compreender a estrutura do Zodíaco?
A simetria do Zodíaco
Uma das bases dessa proposta é a percepção de uma possível simetria entre os princípios masculino e feminino presentes na estrutura zodiacal. É uma dimensão simbólica importante: Pallas e Ceres são duas deusas que representam formas de expressão feminina no Zodíaco, deixando-o mais simétrico em relação aos sexos dos Deuses Regentes.
O Zodíaco apresenta signos que expressam diferentes funções da consciência, e seus regentes tradicionais foram definidos dentro de um sistema construído em uma época na qual o conhecimento sobre o Sistema Solar era muito mais limitado.
Com a descoberta de novos corpos celestes, surge a possibilidade de investigar se determinados arquétipos que ficaram parcialmente representados podem encontrar uma expressão mais precisa.
É nesse ponto que entram Pallas e Ceres. As duas são figuras femininas extremamente importantes da mitologia grega, mas representam funções muito diferentes.
Pallas Atena representa a inteligência estratégica, a capacidade de avaliar, estabelecer critérios, compreender padrões, negociar e agir de maneira racional.
Ceres (Deméter) representa a relação da consciência com a matéria, a agricultura, a organização da produção, a manutenção da vida e a capacidade humana de transformar a natureza para criar sustento, estrutura e civilização.
Quando observamos esses arquétipos juntamente com os signos de Libra e Virgem, surge uma correspondência que merece ser investigada.
Pallas e Libra
Tradicionalmente, Libra é regido por Vênus.
Vênus certamente possui uma relação evidente com Libra: beleza, atração, valores, prazer, relações e capacidade de estabelecer vínculos, mas fora isto, existe uma outra dimensão fundamental em Libra: a capacidade de avaliar.
Uma balança não apenas representa equilíbrio, não representa simplesmente inteligência no sentido de acumular conhecimento. Ela representa a inteligência que observa padrões, estabelece critérios, compara possibilidades e avalia consequências. E essa função se aproxima profundamente do arquétipo de Pallas.
Libra tem menos a ver com Vênus e mais com Pallas, o próprio símbolo da balança reflete isso. O próprio símbolo de Libra é a balança.
É a inteligência estratégica e a capacidade de perguntar: “Se eu fizer isso, o que acontecerá?” “Qual é a consequência dessa escolha?” “Qual é a medida adequada para esta situação?” Essa é precisamente a imagem da balança.
Por isso, Libra pode ser compreendido menos como o signo exclusivamente venusiano do relacionamento e mais como o signo palladiano da avaliação, da medida e da justiça.
Pallas e Libra tradicionalmente estão associadas a relacionamento, equilíbrio, justiça, comparação, negociação e capacidade de considerar diferentes lados de uma situação.
Até a beleza que libra capta e inspira vem da balança, da proporcionalidade das formas, os lados iguais direito e esquerdo. Daí vem o bom gosto. Do fato de estar sempre medindo (e muitas vezes pendendo contra si) libra é adorável, necessita agradar. Os valores também são justificados pela balança.
- proporção → equilíbrio → estética → bom gosto → valores → julgamento → necessidade de harmonizar
Ceres e Virgem
Virgem tradicionalmente está associado a organização, análise, aperfeiçoamento, trabalho, técnica, utilidade e capacidade de colocar algo em ordem. Mercúrio explica uma parte importante desse funcionamento: observação, pensamento, análise e processamento de informações, mas a correspondência de Ceres com Virgem talvez seja ainda mais interessante quando ultrapassamos a associação simplificada de Ceres com maternidade, alimentação e fertilidade.
Ceres é uma divindade profundamente ligada à agricultura, e a agricultura representa uma das maiores revoluções da consciência humana.
Sua mitologia como a grande mãe (no caso do rapto de sua filha por Hades), justifica a alimentação e agricultura.
O ser humano deixou de apenas retirar da natureza aquilo que encontrava e passou a observar, compreender, organizar e transformar os processos naturais para produzir aquilo de que precisava.
Plantou, selecionou sementes, organizou ciclos, aprendeu a prever períodos, desenvolveu técnicas, otimizou recursos, criou sistemas de produção.
Em outras palavras: a mente passou a organizar a matéria.
É justamente aqui que encontramos uma correspondência extremamente interessante com Virgem.
Entre os três signos do elemento Terra, Virgem é aquele que apresenta a característica mais claramente mental, analítica e técnica.
Touro estabelece a relação sensorial e material com a realidade. Capricórnio estrutura e administra a matéria em busca de resultados e realização. Virgem observa a matéria, analisa seu funcionamento, identifica falhas, organiza processos e procura maneiras de aperfeiçoá-la, é o princípio da otimização.
Por isso, Ceres pode representar muito mais do que simplesmente “nutrir”, ela representa a capacidade de organizar a realidade material para sustentar a vida.
Nessa perspectiva, Ceres pode ser compreendida como uma espécie de inteligência aplicada à organização da matéria e da vida. Ela observa aquilo que existe e pergunta: “Como isso pode funcionar melhor?” e essa pergunta é essencialmente virginiana.
Ceres, no mapa representa o lugar que ocupamos no mundo, e existe uma relação entre aquilo que somos, aquilo que sabemos fazer e aquilo que podemos oferecer ao coletivo.
Ceres pergunta: “Onde aquilo que sou pode ser útil?” “Qual é a minha função?” “Onde está o meu lugar?” e finalmente: “O que posso cultivar no mundo?”
- Grande Mãe → alimento → agricultura → ciclos da natureza → manutenção da vida
Tradição não precisa significar imobilidade. Toda tradição começa um dia como uma inovação, aquilo que hoje chamamos de tradicional foi, em algum momento da história, uma nova maneira de organizar o conhecimento.
A astrologia sobreviveu justamente porque soube incorporar novos símbolos, novas observações e novas formas de interpretação.
Não estou descartando os significados tradicionais de Libra e Virgem; pelo contrário, estou procurando a origem simbólica deles e perguntando qual arquétipo explica melhor cada camada, e traz mais equilíbrio para o zodíaco como um todo.
Às vezes, para compreender melhor um conhecimento antigo, é necessário primeiro desembaraçar os fios que foram se acumulando ao longo do tempo, para enxergar novamente o desenho.
