Horóscopo - O horóscopo desmoraliza a astrologia?

"Você já leu seu horóscopo e pensou: isso não tem nada a ver comigo?"
Essa reação é bastante compreensível. Afinal, como seria possível descrever a vida de milhões de pessoas apenas dizendo que elas nasceram sob determinado signo?
“Horóscopo” é um termo muito mais amplo do que “horóscopo de jornal”. Historicamente, horóscopo significa uma configuração celeste calculada para determinado momento — inclusive o momento do nascimento. Portanto, não seria correto dizer que “horóscopo significa previsão de signo solar”.
Ele é uma de suas formas mais simples e acessíveis de expressão. Enquanto o mapa astral procura compreender a singularidade de uma pessoa a partir do céu de seu nascimento, o horóscopo trabalha com referências coletivas e com os movimentos do céu no presente. São propostas diferentes, mas pertencem à mesma tradição astrológica.
Dessa forma, horóscopo popular é uma pequena janela para a astrologia, não a astrologia inteira. O que talvez seja menos conhecido é que o horóscopo publicado em jornais, revistas e sites é uma forma extremamente simplificada de uma tradição astrológica muito mais ampla.
Horóscopo tem história
Ao longo da história, a astrologia utilizou signos, casas, planetas, regentes, subdivisões dos signos e outras técnicas.
O horóscopo popular teve uma função importante: levou a astrologia para fora dos círculos especializados e ajudou a mantê-la presente na cultura popular.
Paradoxalmente, aquilo que ajudou a astrologia a sobreviver e chegar a um público enorme também contribuiu para que ela fosse conhecida apenas por sua forma mais simplificada.
Então como se faz um horóscopo?
Em uma modalidade de horóscopo por signo, o astrólogo:
- Escolhe o signo que será analisado — por exemplo, Áries.
- Toma esse signo como ponto de partida, como se ele ocupasse a primeira casa.
- A partir daí, os demais signos ocupam sucessivamente as posições seguintes: Áries, Touro, Gêmeos... até Peixes.
- Observa onde os planetas estão no céu naquele momento.
- Esses planetas são então interpretados conforme o signo em que estão e a posição que esse signo ocupa em relação ao signo analisado.
- O regente do signo também ganha importância. No caso de Áries, é Marte; para Touro, Vênus; para Gêmeos, Mercúrio, e assim por diante.
- Há ainda formas de refinar a interpretação, utilizando graus, decanatos e outras técnicas tradicionais.
OBS: Decanatos:
A origem dos decanatos não está originalmente na astrologia grega: eles vêm do antigo Egito, onde grupos de estrelas eram utilizados para marcar períodos de aproximadamente dez dias e também acompanhar as horas da noite. Posteriormente, os astrólogos helenísticos incorporaram esse sistema ao zodíaco de 12 signos.
Decanato é cada uma das três divisões de 10 graus de um signo zodiacal de 30 graus. Assim, cada signo possui:
1º decanato: de 0° a 9°59′;
2º decanato: de 10° a 19°59′;
3º decanato: de 20° a 29°59′.
Em algumas tradições, os decanatos são associados aos outros signos do mesmo elemento, acrescentando uma nuance à interpretação do signo principal.
Na divisão por signos do mesmo elemento, os três decanatos seguem a ordem cardinal, fixo e mutável:
Fogo: Áries → Leão → Sagitário
Terra: Capricórnio → Touro → Virgem
Ar: Libra → Aquário → Gêmeos
Água: Câncer → Escorpião → Peixes
Assim, por exemplo, Libra fica:
1º decanato: Libra, de 0° a 9°59′;
2º decanato: Aquário, de 10° a 19°59′;
3º decanato: Gêmeos, de 20° a 29°59′.
O signo principal continua sendo Libra; o signo associado ao decanato acrescenta apenas uma nuance interpretativa.
Imagine que estejamos fazendo o horóscopo de Áries e Marte, regente de Áries, esteja transitando por Libra. Como Libra é o sétimo signo contado a partir de Áries, Marte passa a ocupar simbolicamente a sétima casa nessa leitura. O astrólogo poderia então relacionar o planeta regente de Áries a temas associados à sétima casa, como relacionamentos, parcerias e confrontos.
Se Marte estivesse, por exemplo, no segundo decanato de Libra, ainda seria possível acrescentar à interpretação a simbologia de Aquário, correspondente ao segundo decanato de Libra no sistema de decanatos por triplicidade.
Naturalmente, essa é apenas uma apresentação simplificada. Existem diferentes escolas e técnicas de elaboração de horóscopos, e a astrologia tradicional possui recursos muito mais sofisticados do que aqueles normalmente empregados nas colunas de jornais e revistas.
Diferença com o mapa astrológico
|
Horóscopo |
Mapa Astral |
|
Parte de uma referência coletiva
|
Parte dos dados individuais de nascimento
|
|
Geralmente utiliza o signo solar
|
Utiliza data, hora e local de nascimento
|
|
Pode ser aplicado a muitas pessoas
|
É calculado especificamente para uma pessoa
|
|
Observa os movimentos do céu em determinado período
|
Mostra a configuração celeste do nascimento
|
|
É uma leitura mais sintética
|
Permite uma análise muito mais ampla
|
Por isso, não é razoável exigir de um horóscopo de jornal o mesmo nível de precisão que se espera de um mapa astral individual.
Exemplo:
Imagine duas pessoas:
Maria e Ana são ambas arianas.
O horóscopo de Áries pode oferecer uma tendência geral que serve como referência para as duas.
Mas Maria nasceu:
3 de abril, 14h20, Campinas.
E Ana:
8 de abril, 5h40, Salvador.
Elas podem ter:
- Ascendentes diferentes;
- Lua em signos diferentes;
- Mercúrio e Vênus diferentes;
- casas diferentes;
- configurações planetárias diferentes.
Portanto, serem ambas de Áries não significa que tenham o mesmo mapa astral.
O signo solar é apenas uma das informações utilizadas pela astrologia natal. Reduzir o mapa astral ao signo solar seria como tentar descrever uma cidade inteira conhecendo apenas o nome de um de seus bairros.
Talvez o problema não esteja no fato de o horóscopo ser simples. O problema está em confundir uma forma popular e resumida de astrologia com o conhecimento astrológico em sua totalidade.
Da mesma maneira, não seria justo avaliar a medicina apenas pela bula de um medicamento, ou a astronomia por uma previsão simplificada sobre o nascer do Sol. Uma apresentação popular não necessariamente representa toda a complexidade do conhecimento que lhe deu origem.
O horóscopo não precisa ser abandonado para que o mapa astral seja valorizado. Ele pode ser compreendido pelo que é: uma forma popular, sintética e historicamente importante de divulgação da astrologia.
O mapa astral, por sua vez, permite uma investigação individual muito mais ampla, porque considera as particularidades do nascimento de cada pessoa.
Talvez, portanto, o primeiro passo para levar a astrologia a sério seja justamente deixar de exigir que o horóscopo seja aquilo que ele nunca pretendeu ser.

