Lalibela: as igrejas que nasceram da pedra

Imagine estar diante de uma paisagem aparentemente comum na Etiópia.
Então você olha para o chão. Ali existe um enorme vazio, como se alguém tivesse aberto um gigantesco buraco na terra. E, no fundo dele, surge uma construção de pedra em forma de cruz.
Mas existe algo ainda mais extraordinário: ela não foi construída sobre a pedra. Foi esculpida dentro dela.
Estamos em Lalibela, no norte da Etiópia, um dos lugares mais impressionantes da arquitetura religiosa medieval.
A mais famosa delas é Bete Giyorgis — a Igreja de São Jorge.
Vista de cima, ela tem a forma de uma cruz, mas essa cruz não foi montada com blocos de pedra.
Os construtores começaram com uma enorme massa de rocha vulcânica e foram retirando a pedra ao redor e por cima, até que a própria igreja permanecesse como um bloco monolítico. Depois, esse bloco foi esculpido, trabalhado e transformado em uma igreja completa.
É como se alguém tivesse construído uma igreja ao contrário, em vez de colocar pedras umas sobre as outras, os construtores retiraram tudo aquilo que não fazia parte do edifício.
Como fizeram isso?
Essa é uma das perguntas que tornam Lalibela tão fascinante.
Os trabalhadores precisaram escavar profundamente a rocha, criando uma espécie de grande trincheira ao redor da igreja. Depois, trabalharam a própria estrutura interna, portas, janelas, corredores, colunas, arcos e outros detalhes foram esculpidos diretamente na pedra.
O resultado é uma construção que parece ter sido enterrada no chão, mas, na realidade, ela é a parte da rocha que foi preservada enquanto todo o material ao redor era retirado.
O conjunto de igrejas é tradicionalmente associado ao rei Gebre Mesqel Lalibela, que governou o Reino da Etiópia no século XII e início do XIII.
Segundo a tradição etíope, o rei teria recebido uma missão divina para construir uma nova Jerusalém, Lalibela teria então se tornado um grande centro de peregrinação cristã.
A cidade possui onze igrejas e estruturas religiosas escavadas na rocha, ligadas por passagens, túneis e corredores.
Algumas ficam parcialmente abaixo do nível do solo, outras são conectadas por caminhos escavados na própria pedra.
A lenda dos anjos
De acordo com a tradição, a construção teria sido realizada com ajuda sobrenatural, conta-se que os trabalhadores humanos escavavam durante o dia e que, durante a noite, anjos continuavam o trabalho.
A história obviamente pertence ao campo da tradição religiosa, e não existe evidência arqueológica de que seres sobrenaturais tenham participado da construção, mas ela revela algo importante: a obra parecia tão extraordinária para as gerações posteriores que acabou cercada por histórias de intervenção divina.
Lalibela foi concebida como um importante centro religioso cristão. Uma Jerusalém africana
Suas igrejas receberam nomes e elementos associados à tradição bíblica, e o conjunto procurava criar uma espécie de Jerusalém simbólica na Etiópia. Para os peregrinos, portanto, não era apenas um conjunto de construções impressionantes, era uma representação física de uma paisagem sagrada.
Caminhar pelos corredores escavados na pedra, entrar nas igrejas e atravessar os espaços subterrâneos fazia parte da experiência religiosa.
Mesmo deixando as lendas de lado, Lalibela continua sendo extraordinária.
Como os trabalhadores mediam a rocha?
Como planejavam uma estrutura que precisava ser esculpida de cima para baixo?
Como garantiam que os corredores, portas e janelas chegassem exatamente aos lugares planejados?
Como retiravam toneladas de pedra sem comprometer a estrutura?
A própria capacidade humana necessária para realizar o projeto já é extraordinária.
|
O que sabemos |
Tradições e interpretações |
|
As igrejas foram escavadas diretamente na rocha |
Anjos teriam ajudado na construção durante a noite |
|
O complexo é medieval |
Lalibela teria recebido uma missão divina |
|
Bete Giyorgis possui planta em forma de cruz |
O conjunto seria uma representação da Jerusalém celestial |
|
Lalibela tornou-se um importante centro de peregrinação |
A construção teria sido realizada em um período extraordinariamente curto |
|
O conjunto possui onze igrejas e estruturas religiosas |
Alguns detalhes ganharam interpretações simbólicas ao longo dos séculos |
Lalibela nos lembra que algumas das construções mais misteriosas da história não precisam pertencer a civilizações desconhecidas.
Elas podem ter sido feitas por pessoas sobre as quais sabemos relativamente pouco, utilizando ferramentas simples, uma enorme quantidade de trabalho e uma visão religiosa capaz de transformar completamente a paisagem.
Há quase mil anos, homens entraram naquela rocha e começaram a retirar pedra, e quando terminaram, no lugar de uma montanha havia uma igreja.
Uma igreja que não foi construída, foi revelada.

