O problema do mal

Eu vi um debate, um dentre esses muitos da Internet, entre um bruxo e um político conservador e cristão. Eu particularmente gosto dos dois, porque ambos trazem pontos importantes para que eu transcenda o eixo do contraditório e chegue a consciência sobre a ideia.
A questão é a seguinte: o cristão diz que Deus é o extremo do amor e bondade (Deus do Novo Testamento suponho). O bruxo diz que Deus tem aspecto bom e mau, já que ele compreende toda a criação, inclusive o que seria o próprio demônio em que o cristão acredita (o bruxo não acredita que haja demônio do modo cristão, só compreende que é a crença de outra religião).
Penso eu: eu acredito no Deus maior que pode existir, portanto extrapolo, penso um Deus Cósmico, que carrega todas as possibilidades de criação.
Mas se considerarmos o planeta, certamente seria um Deus com menor comando, de um planeta dentro da criação, sendo um dos aspectos apenas, do Deus maior.
Então ele pode ser imperfeito. Se você observar a nossa realidade, as coisas, mesmo as que veem direto de Deus, como a natureza, são imperfeitas no conceito de apenas bom.
Na natureza há presa e predador, o planeta está vivo com placas tectônicas que podem fazer movimentos extremos, em alguns lugares há sol escaldante, em outros o frio cortante. A noite pode ser extremamente escura e o sol extremamente claro, a proporção das horas do dia e noite talvez não seja das melhores, e por aí vai. Cada coisa que falei apresenta o lado "ruim" do Deus da terra.
Daí vem a pergunta: Por que um Deus que chamamos de amor permite a existência de uma realidade na qual sofrimento, destruição e conflito são possíveis?
Pense em um planeta que permita essas condições ideais, seria uma espécie de paraíso, e está dentro das possibilidades do Deus Cósmico. Um planeta sem predadores, sem doenças, com clima equilibrado, sem catástrofes geológicas, com ciclos de luz e escuridão perfeitamente adequados ao organismo humano e com recursos abundantes.
Se isso é concebível, então surge uma questão complementar: por que a realidade que habitamos, não é assim?
Dentro da natureza humana, também há o mal, nem precisa dizer. Não estou normalizando o mal, mas reconhecendo-o na nossa realidade. Reconhecer a existência é diferente de aprovar; um incêndio existe, mas não precisamos considerá-lo "bom" porque existe.
Além disso, sempre penso nos animais, porque Deus permite que os animais sofram?
E talvez essa seja uma das formas mais difíceis do problema do mal, porque o animal não parece ter a mesma possibilidade de escolha moral que atribuímos ao ser humano.
Quando um leão mata uma zebra, quando um animal sofre uma doença ou quando um filhote morre, é difícil responder simplesmente: "é consequência do livre-arbítrio". O animal não escolheu aquela condição. Uma explicação causal não é uma justificativa moral.
Existem respostas religiosas e filosóficas diferentes:
- algumas dizem que o sofrimento faz parte de uma criação em processo;
- outras dizem que a natureza possui autonomia e leis próprias;
- algumas tradições entendem a existência como um ciclo de nascimento, morte e transformação;
- outras sustentam que o sofrimento é consequência de uma ruptura primordial;
- e há posições que simplesmente admitem que não sabemos por que existe sofrimento.
Nenhuma explica realmente. Talvez o mundo em que vivemos não seja a expressão completa daquilo que Deus pode ser, mas apenas uma manifestação particular, regida por determinadas leis e limitações.
Poderia significar que a criação, neste nível, funciona por processos que incluem sofrimento. Deus criou uma realidade na qual o sofrimento é uma possibilidade.
Assim, pode ser que coisas como o sofrimento sejam ferramentas dessa realidade para impulsionar a evolução. Mas a questão dos os animais é que em se tratando de Deus (estamos falando de espiritualidade), os animais, portanto, também estejam nessa corrida evolutiva espiritual, como nós, mas na natureza deles.
O sofrimento é uma possibilidade inerente a esta realidade e pode tornar-se um elemento de evolução para aquele que o vivencia.
Isso também muda a pergunta: "Por que Deus permite que os animais sofram?" e passe a ser: "O que significa, espiritualmente, uma existência animal dentro de uma realidade em que a consciência evolui através da experiência?"
O animal não está fora do processo espiritual da criação. Ele está participando dele segundo a natureza que lhe corresponde.
Estaríamos diante de outras formas de vida participando do mesmo processo cósmico, embora em condições diferentes. E aí a compaixão deixa de ser apenas uma virtude humana, ela passa a ser uma consequência lógica da percepção de que: estamos todos dentro do mesmo processo de evolução da criação.
As respostas podem se direcionar para: Deus absoluto Cósmico, transcende os polos; O Deus menor, direcionado a realidade da terra, manifesta os polos, que cabem o bem e mal. Assim, o mal é uma manifestação limitada de uma realidade infinitamente maior, e a evolução, desde o planeta, passando pelos animais e chegando em nós humanos, seria então uma resposta à imperfeição da manifestação.
Você não precisa imaginar a criação como algo que já deveria estar acabada e perfeita. Pode imaginá-la como um processo. (Pelo menos nessa fase que estamos). A nós cabe procurar evoluir, como o próprio chão que pisamos faz.
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