Santa Muerte - México

17/01/2016 11:55

 

Santa Muerte -México

“A morte tem tanta certeza que vai te pegar que te dá uma vida de vantagem.”

 

A religião oficial do México é a católica, porém a religião pré-colombiana oriunda da antiga civilização asteca se faz presente até hoje através de um sincretismo que originou pelo menos duas  grandes manifestações: a veneração da Santa Muerte, ou Nossa Senhora da Santa Morte, como seus fiéis costumam chamar, e a peculiar  comemoração mexicana do dia dos mortos.

As civilizações mesoamericanas como os totonacas, náuatles, purépechas, maias e astecas tinham uma relação diferente com a morte, onde ela representava naturalmente a continuidade da vida, o nascer, morrer e renascer, e por isso já festejavam seus mortos e  reverenciavam a morte.

Os astecas por exemplo dedicavam todo o nono mês, correspondente a agosto, aos mortos. Até hoje no México, o pior a acontecer com uma pessoa não é morrer e sim cair no esquecimento, por isso os mexicanos cultuam os antepassados mantendo suas memórias.

De todos os povos mesoamericanos pré-colombianos, os astecas que viveram onde hoje é o México, certamente foram os mais radicais no quesito sacrifício. Em cima de suas pirâmides chamadas Teocalli, cultuavam seus deuses através de, entre outros rituais, o sacrifício de prisioneiros, que eram drogados e amarrados, e no apogeu do ritual, dele ainda vivo era retirado o coração, dedicado ao deus Sol. Depois o corpo era cozido e servido como banquete em grande festividade. Isso acontecia desde mais ou menos 1000 a 1500 anos a.C., até que os espanhóis dizimassem toda civilização indígena.

Mas algo restou dessa memória passada. Apesar de toda repressão, sobrou o sincretismo, que provavelmente misturou a Nossa Senhora católica com a dama da morte “La Catrina”, esposa de Mictlantecuhtli, o rei dos mortos, que presidiam os cultos dedicados aos mortos na antiguidade, originando a atual figura Santa Muerte.

A santa é uma figura esquelética, ou mesmo um esqueleto, vestida com um manto, que pode variar em cor, de acordo com o desejo pretendido, e que carrega uma gardanha (foice de cabo comprido), um globo ou uma balança e possui uma coroa dourada.

 

Condenada pela Igreja Católica, o culto a Santa Muerte foi clandestino até 2001, ficando pública primeiramente na Cidade do México. Está entranhada nas tradições das classes baixas e marginalizadas socialmente e/ou  rejeitadas religiosamente como comunidades LGBT. Ganha força nessas comunidades pela lógica de que a morte não discrimina ninguém.

Santa Muerte é tida como padroeira de traficantes e sequestradores. A explicação é que por ela podem ser feitos trabalhos, e sendo ela senhora da morte, pode dar orientações e favorecimentos que outros santos não atenderiam, ou seja, seus aspectos sombrios deixam seus devotos a vontade para qualquer pedido. Em geral pode ser reverenciada com oferendas de cigarros, bebidas, comidas, rosas, velas, etc.

O culto a Santa Muerte não tem a menor menção de qualquer líder espiritual ou sistema organizado. Eventualmente perseguida, já teve suas capelas destruídas, o que não desestimulou seu culto e tão pouco a criminalidade que ronda seu nome.

Outra manifestação que envolve o mesmo tema morte, mas de forma totalmente festiva e alegre é a comemoração do dia dos mortos, que ocorre entre o dia 31de outubro a 2 de novembro. De origem indígena, o dia de Finados mexicano comemora a vinda dos ancestrais nessa data, que voltam para visitar os vivos. Logicamente, a festa indígena não coincidia com o dia de finados católico, mas os espanhóis trataram logo de cristianizar a festa coincidindo os dias.

Realmente, é uma festa única, que junta Virgem Maria, crucifixos e elementos astecas. São servidos banquetes de comidas típicas, enfeites e diversão para as crianças, com o detalhe que tudo isso ocorre nos cemitérios. Os túmulos são ricamente decorados, e há oferendas de tequila, comidas preferidas pelo morto e doces. Famílias chegam a retirar os restos mortais dos túmulos e limpá-los, para depois guardar tudo de novo para o próximo ano.

Do dia 31 de outubro a 1 de novembro os festejos se dedicam aos mortos crianças, ou santos inocentes e do dia primeiro até o dia dois a homenagem é para os mortos adultos.

A festa toda se caracteriza por muita alegria e devoção e seu espírito é traduzido na expressão espirituosa  que explica o estar morto para um mexicano: “não estava morto, só andava um pouco falecido.”

 

Natália Verdial